"Sem juros" descreve o carnê, não a decisão
Quando a loja oferece 10% de desconto à vista ou doze vezes sem juros, as duas opções não custam o mesmo. Recusar o desconto é pagar para financiar, e o preço desse financiamento é exatamente o desconto perdido — só que ele não aparece com nome de juro em lugar nenhum.
A comparação honesta não é entre os valores nominais. É entre o preço à vista e o que as parcelas valem hoje, trazidas pela taxa em que o seu dinheiro efetivamente rende no meio do caminho.
Por que trazer as parcelas a valor presente
Pagar cem reais daqui a um ano não é o mesmo que pagar cem reais hoje. Se o dinheiro rende, os cem que ficam na sua conta viram mais que cem até o vencimento — e a parcela futura, em dinheiro de hoje, custa menos que o valor nominal.
Cada parcela é dividida por um mais a taxa, elevada ao número de meses até vencer. A soma dessas parcelas descontadas é o custo real do parcelamento hoje, e é ela que se compara com o preço à vista.
Quanto maior a taxa de rendimento e mais longo o parcelamento, mais o valor presente se afasta do nominal. É por isso que a mesma oferta pode ser boa para uma pessoa e ruim para outra: depende de quanto o dinheiro rende na mão de cada uma.
A taxa de equilíbrio
Existe uma taxa em que as duas opções empatam exatamente. Acima dela, compensa parcelar e deixar o dinheiro rendendo; abaixo, compensa pegar o desconto e pagar à vista. Essa taxa é o juro que o desconto esconde.
Ela é o número mais útil da página, porque não depende de estimativa: basta comparar com o que você realmente ganha. Se o desconto embute uma taxa de equilíbrio de 3% ao mês e sua aplicação rende 1%, o desconto é bom negócio e a conta não tem dúvida.
A dívida vem antes da aplicação
Se você tem saldo no cheque especial ou no rotativo do cartão, a taxa relevante não é a da sua aplicação: é a da dívida. Dinheiro que quita uma dívida de 8% ao mês está rendendo 8% ao mês, livre de imposto e sem risco.
Nesse caso a conta quase sempre aponta para parcelar sem juros e usar o dinheiro para quitar a dívida cara — o oposto do conselho genérico de sempre pagar à vista.