Somar a margem ao custo dá menos margem do que parece
Um produto que custou R$ 100, vendido a R$ 130, não deixa 30% de margem. Deixa R$ 30 sobre um preço de R$ 130, ou 23% — e isso antes de descontar imposto, comissão e taxa de cartão. Depois deles, sobra bem menos.
A razão é simples: os percentuais incidem sobre o preço de venda, e não sobre o custo. Quando você acrescenta 30% ao custo, está calculando o acréscimo sobre a base errada.
O markup divisor
O jeito certo é dividir. Some todos os percentuais que saem do preço — impostos, comissão, taxa de cartão — mais a margem que você quer. Subtraia essa soma de 1 e divida o custo pelo resultado.
Com custo de R$ 100, impostos de 6%, comissão de 5%, cartão de 3,99% e margem de 20%, a soma é 34,99%. O preço é 100 ÷ 0,6501 = R$ 153,82. Nesse preço, e só nesse, os 20% de margem realmente sobram.
O número 1,5382 que aparece entre custo e preço é o markup multiplicador. Ele é consequência da conta, não ponto de partida — e muda toda vez que qualquer percentual muda.
Quando não existe preço possível
Se a soma dos percentuais com a margem chegar a 100%, a conta não tem solução: cada real a mais de preço seria inteiramente consumido pelos percentuais, e o custo nunca seria coberto.
Na prática, o aviso aparece bem antes disso. Quando a soma passa de 70% ou 80%, o preço dispara — e é sinal de que o problema está na estrutura de custos ou no canal de venda, não na calculadora.
O custo fixo rateado é o que quase todo mundo esquece
Aluguel, energia, salários e sistema não desaparecem porque você não os somou ao produto. Divida o custo fixo mensal pela quantidade que espera vender e some ao custo unitário — é o que transforma margem de planilha em dinheiro no caixa.
Esse rateio tem um efeito perverso conhecido: se você vender menos do que previu, o custo fixo por unidade sobe e a margem real cai justamente no mês ruim. Vale refazer a conta com uma previsão conservadora.
Margem sobre preço e margem sobre custo
Os dois números descrevem o mesmo lucro com bases diferentes, e trocá-los é a confusão mais cara do varejo. R$ 30 de lucro sobre um preço de R$ 130 são 23% de margem; os mesmos R$ 30 sobre um custo de R$ 100 são 30%.
Quando alguém disser que trabalha com 40% de margem, vale perguntar sobre qual base. A diferença entre as duas leituras costuma ser exatamente o que separa um negócio lucrativo de um que se acha lucrativo.